O “jeitinho brasileiro” de ser cristão.

A paz do Senhor, meus irmãos

É bem provável que todos nós já tenhamos nos deparados vez ou outra com a expressão “jeitinho brasileiro” e, caso o leitor esteja em solo brasileiro há mais de 3 minutos, indubitavelmente já experimentou, seja passiva ou ativamente, tal característica intrínseca da cultura verde-amarela. Mas o que vem a ser exatamente tal “jeitinho”? Dentre as muitas definições encontradas em literatura, uma que talvez exprima de maneira sucinta seja a encontrada no trabalho de Motta e Alcadipani (1999):

“O `jeitinho brasileiro´ é o genuíno processo brasileiro de uma pessoa atingir objetivos a despeito de determinações (leis, normas, regras, ordens etc.) contrárias.”

Fonte: http://www.scielo.br/pdf/rae/v39n1/v39n1a02.pdf

Fica claro, também exposto em literatura, dessa feita em trabalho de Vieira et al (1982), que tal “jeitinho” contém características interessantes como a criatividade e maneiras mais “soft” de se lidar com o imprevisto e que essa característica cultural vem sendo construída através dos séculos de brutais desigualdades sociais e de burocracia kafkiana que vem assolando essa nação. Entretanto, ao mesmo tempo que o “jeitinho” foi a maneira encontrada pela população de contornar tamanha desigualdade, ele também é um dos motivos de não se conseguir atingir patamares maiores de desenvolvimento econômico, social, cultural e espiritual, dado que salvo exceções, o que impera é a lei da vantagem e benefício próprio em detrimento de outrem.

Fonte: http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rap/article/view/11440/10392http://scienceblogs.com.br/socialmente/2012/08/e-jeitinho-brasileiro/

Infelizmente, observa-se com tristeza que dentro da igreja cristã brasileira os aspectos mais nefastos do tal “jeitinho” se fazem presentes em peso. É um tremendo paradoxo verificar que o país com o segundo maior contingente populacional que se denomina cristão no planeta (com mais de 165 milhões de cristãos, ficando atrás apenas dos EUA) é o 11º país mais inseguro do mundo, o 69º mais corrupto e apresenta alguns dos piores índices de educação do planeta. Torna-se patente que algo muito errado está acontecendo, trazendo para dentro do contexto deste post a pergunta: que tipo de cristão é o cristão brasileiro?

Fonte: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/04/brasil-e-o-11-pais-mais-inseguro-do-mundo-no-indice-de-progresso-social.htmlhttp://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/o-ibge-e-a-religiao-%E2%80%93-cristaos-sao-868-do-brasil-catolicos-caem-para-646-evangelicos-ja-sao-222/http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/colunistas/brasil-ocupa-69%C2%BA-lugar-no-indice-de-percepcao-da-corrupcao/

Uma das respostas a essa pergunta foi me dada ontem, num culto na igreja onde congrego, quando o pastor preletor da noite (Pr. Renan Soares de Lima) salientou um aspecto da passagem do evangelho de Lucas, capítulo 15:25-32, que me fez refletir um bocado. Nesse texto se relata a reação do irmão do filho pródigo ao perceber a festa que o Pai fizera para recebê-lo quando do seu retorno:

“E o seu filho mais velho estava no campo; e quando veio, e chegou perto de casa, ouviu a música e as danças.
E, chamando um dos servos, perguntou-lhe que era aquilo.
E ele lhe disse: Veio teu irmão; e teu pai matou o bezerro cevado, porque o recebeu são e salvo.
Mas ele se indignou, e não queria entrar.
E saindo o pai, instava com ele. Mas, respondendo ele, disse ao pai: Eis que te sirvo há tantos anos, sem nunca transgredir o teu mandamento, e nunca me deste um cabrito para alegrar-me com os meus amigos;
Vindo, porém, este teu filho, que desperdiçou os teus bens com as meretrizes, mataste-lhe o bezerro cevado.
E ele lhe disse: Filho, tu sempre estás comigo, e todas as minhas coisas são tuas;
Mas era justo alegrarmo-nos e folgarmos, porque este teu irmão estava morto, e reviveu; e tinha-se perdido, e achou-se.”

Nessa passagem, o Pr. Renan salientou o seguinte aspecto: apesar de ter vivido sempre na casa do pai, “obediente e fiel”, o irmão do filho pródigo não estava ali por causa do Pai, por querer conviver com o Pai, pela alegria em estar na presença do Pai… Estava, sim, interessado nas coisas que o Pai tinha para ele, nos bens materiais, nas bençãos e no benefício próprio: “Que se dane o irmão que estava perdido e voltou! Eu quero a benção, eu quero os bens, eu quero a herança para curtir com os amigos!”.

Esse, meus irmãos, é o “jeitinho brasileiro” dentro da igreja em sua pior forma: é o estar na casa do Pai e querer a benção, querer as coisas que o pai tem para si e só para si, é um dos motivos que faz o segundo país mais “cristão” do planeta viver nesse caos. É o querer levar vantagem em tudo, é o entortar-se a Palavra para se pregar o acúmulo de riqueza material, é o esquecer-se das regras instituídas a custo de sangue e martírio e lembrar-se apenas do que interessa para sustentar jatinhos e mansões e sonhos de posse material, é o cobrar fortunas para “louvar a Deus”, é o gritar “Glória a Deus e Aleluia” nas igrejas e virar a cara ao passar por um indigente na rua, é o “amar a si mesmo” e esquecer-se do “próximo”, é o esquecer-se o temor, é o esquecer-se o Amor.
Esse, meus irmãos, é o “jeitinho brasileiro” de ser cristão.

Que Deus tenha misericórdia de Seu povo.

Anúncios

2 comentários sobre “O “jeitinho brasileiro” de ser cristão.

  1. Triste, mas é verdade. Onde há o “jeitinho” não há cristianismo, pois esse implica em morrermos para nós mesmos, enquanto que o “jeitinho” denota que queremos tudo para nós mesmos (quem tem querer são os vivos, não os mortos).

    Fique na Paz e bem,

    Vera

  2. Não tem outro jeito: Para entrarmos no Reino e termos direito aos (a)braços do Pai, precisamos aprender a colocar nosso coração nas coisas que alegram a Deus e que dão bons testemunhos das maravilhas que Deus faz por nós. O irmão mais velho estava próximo do seu pai, mais distante do Pai. Tinha teto, comida e roupa lavada, mas não tinha intimidade com o seu Criador. O irmão mais velho, com o seu “jeitinho brasileiro de ser”, afastou-se da bênção. A consequência desse afastamento eu explico no post que registrei na minha timeline na semana passada, depois de ter sido questionada sobre existência de Deus. Eis o texto: Semana passada alguém me disse: “Se Deus existisse, não haveria tanta maldade, traição, corrupção. Como você pode acreditar em Deus?” Respondi: “Não culpe Deus pelas coisas ruins que acontecem neste mundo. Ele não quer se relacionar conosco por obrigação, ou porque Ele pode nos dar coisas boas em troca. Por isso, Ele nos deu o livre-arbítrio. Então, tudo é uma questão de escolha, mas você sabe que cada escolha traz uma consequência. Então, entenda o seguinte: quando estamos longe de Deus, fazemos escolhas nem sempre tão acertadas. Mas quando estamos de mãos dadas com Ele, nossas atitudes, nossas escolhas são orientadas pela Sua vontade e elas nos levam ao lugar exato para onde Ele queria que fôssemos. Então, me responda: Por que neste mundo existe tanta maldade, traição, corrupção?”
    Wagner, mais uma vez, seu (ótimo) texto nos instiga a refletir e agir. Que nossas escolhas reflitam nosso grau de intimidade com o Senhor! E aí não haverá “jeitinho” que resista ao poder do nome do Senhor!! Bjs p/ você e p/ a linda Jemima!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s