Quero a glória para mim!

Paz do Senhor, meus irmãos.

“Eu sou o Senhor, esse é meu nome, a ninguém cederei minha glória, nem a ídolos minha honra.” Is 42:8

A igreja evangélica no Brasil vive um momento ímpar e curioso. Parafraseando o ex-presidente Lula, ‘nunca antes na história desse país´ houve um número tão grande de evangélicos, seja em números absolutos ou relativos, nem uma presença política tão expressiva desse grupo no congresso. Ainda assim, ao mesmo tempo que a comunidade evangélica experimenta um aumento significativo em sua representatividade social, apresenta pífias contribuições para melhoras em questões como educação, violência e corrupção – detalhes sobre alguns dos motivos que impedem uma atuação mais efetiva da igreja foram salientados no post anterior: ‘O “jeitinho brasileiro” de ser cristão´.

Entretanto, outro fator que pode jogar um pouco de luz sobre a condição de inércia e letargia que a igreja enfrenta é a percepção de que vem ocorrendo uma mudança lenta, inexorável e nem sempre sutil da glorificação à Deus para a glorificação do homem, do culto à Deus ao culto à personalidade. Antes de continuarmos, o que vem a ser o culto à personalidade?

Alberto Goldman, em seu blog, define de maneira interessante o culto à personalidade:

O culto à personalidade, em vida ou após a morte, quaisquer que tenham sido suas ações, isto é, a elevação de um ser humano à categoria de ser superior, significa algo mais que respeito e  admiração.  Significa a mediocridade do cultor, a incompreensão das limitações e das fraquezas de qualquer ser humano, a inevitabilidade de ter mostrado, em sua vida, o bom e o mal.  Significa não procurar compreender situações concretas em que essa pessoa nasceu e viveu, a realidade de sua vida em sociedade, as suas relações com os demais seres e a conjuntura que lhe permitiu ser o que é, ou foi.

Fonte: http://albertogoldman.org/blog/culto-a-personalidade

Ou seja: o culto à personalidade (esse termo apareceu pela primeira vez numa declaração de Nikita Kruschev sobre Stalin numa reunião do PCUS, fonte: http://www.museudeimagens.com.br/nikita-khrushchev-josef-stalin/, onde foi denunciado o efeito deletério de tal atitude) eleva o ser humano – falho e pecador que é – para patamares acima do bem e do mal, colocando-o num pedestal de superioridade em relação aos demais.

Fica óbvio perceber que quando uma pessoa atinge tal posição de fama e prestígio, ainda citando Goldman, via de regra…

… esse culto à personalidade se transforma em instrumento para manter e prolongar algum tipo de dominação que é exercida sobre pessoas mais simples e mais influenciáveis, em benefício de projetos políticos de poder.

Lembrando que projeto político aqui pode ser traduzido como qualquer ação que exija interação interpessoal para que se atinja um dado interesse, notadamente que envolva dinheiro e o poder que o mesmo traz.

Não é de hoje que a bajulação, a soberba e busca pelo poder atingem a igreja, aliás a primeira e a mais importante queda, a de Satanás, foi devida a esses motivos. Várias passagens da bíblia também relatam o que aconteceu aos personagens que não resistiram à soberba e a tentação do culto à personalidade, vide 1 Samuel 17:42-51Ester 3:5,6; Atos 12:1-3,  e num passado recente grandes tragédias aconteceram por conta dos mesmos e antigos erros, como o caso do suicídio massal em Jonestown, na Guiana, promovido por Jim Jones do “Templo dos Povos: Igreja Cristã do Evangelho Pleno”. Fonte: pt.wikipedia.org/?title=Jim_Jones

É certo que o culto à personalidade (ainda) não atingiu níveis de danos tão horrendos no Brasil, mas é notório que se faz cada vez mais presente e arraigado dentro da cultura evangélica verde-amarela, facilmente perceptível em áreas de ampla divulgação midiática, como a musical.

Chega a ser chocante constatar que cantores e músicos cobrem cachês que podem chegar aos 250.000 reais por “show” (e por favor, não me venham com o papo que um show tem custos logísticos com equipamento, estruturas e montagem, pois esse valor é apenas o cachê dos músicos. Dentro do contrato exige-se que todas as despesas com transporte e estrutura sejam bancados pelo contratante. Fonte: http://blogdobg.com.br/prefeitura-banca-estrutura-e-cache-para-diante-do-trono/http://cadaminuto.com.br/noticia/2012/12/15/aniversario-de-maceio-prefeitura-esquece-cultura-local-e-paga-para-show-gospelhttp://acritica.uol.com.br/noticias/Amazonia-Amazonas-Superfaturamento-Reveillon-Gospel-Manaus_0_628137223.html?commentsPage=1).

A questão aqui não é apenas o valor do cachê, que por si só já é absurdo (lembremos que valor do cachê não significa qualidade musical nem tem relação com a história de vida dos integrantes, vide quanto ganham esses “cantores” pseudosertanejos que vemos por aí). Muitos poderão pensar ou dizer que muita gente foi influenciada positivamente pelas músicas de muitos desses cantores/grupos “gospel” e que tem, sim, que cobrar o cachê alto porque merecem o reconhecimento pela obra. Pergunto então: qual terá sido o “cachê” que Paulo cobrou/mereceu em suas ministrações? Ou mais fundo ainda, quanto que Cristo cobrou e quais as exigências materiais que Ele fez para levar Sua palavra? Em Mt 8:20, Cristo fala que não tem nem onde reclinar a cabeça:

E disse Jesus: As raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça.

… e em Mc 10: 42-45:

Mas Jesus, chamando-os a si, disse-lhes: Sabeis que os que julgam ser príncipes dos gentios, deles se assenhoreiam, e os seus grandes usam de autoridade sobre eles;
Mas entre vós não será assim; antes, qualquer que entre vós quiser ser grande, será vosso serviçal;
E qualquer que dentre vós quiser ser o primeiro, será servo de todos.
Porque o Filho do homem também não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos.

Afinal, penso que se a questão for merecimento não devemos ganhar nada, pois não somos merecedores nem da graça divina, o que foi muito bem explanado no texto do Pr. Hernandes Dias Lopes, cujo link segue: http://ipbvit.org.br/2011/10/17/a-graca-de-deus-favor-imerecido/.

“Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie. Pois somos feitura dele, criados em Cristo Jesus para as boas obras, as quais Deus de antemão preparou para que andássemos nelas” (Ef 2.8-10), é o alerta que Paulo fez aos Efésios e que continua válido até hoje.

Voltando diretamente à questão do culto à personalidade, fica mais fácil perceber que o foco de “grandes nomes” do mundo evangélico (incongruente esse termo, pois grande deveria ser apenas o nome do Senhor) é cada vez maior em si próprios que no criador ao observarmos seus sites na internet: fotografias exaltando-os, biografias exaltando-os, venda de jóias, venda de artigos religiosos, roupas, acessórios de moda, discos, dvd´s, entre outras coisas, tudo isso consumido avidamente e defendido com unhas e dentes por uma legião de fãs… Mas é difícil encontrar nos sites apenas um pequeno texto ou vídeo relativo à Palavra e em alguns deles NÃO HÁ sequer UMA ÚNICA passagem da bíblia, nem qualquer outro sinal de foco em Deus, apenas foco no eu sou, eu tenho, eu posso, eu faço, eu, eu, eu, eu, eu, eu…

Convido aos irmãos a visitarem os sites abaixo e constatarem por si mesmo onde está o foco e à quem aparentemente está sendo dirigida a glória:

http://www.alinebarros.com.br/site/

http://www.diantedotrono.com/

http://darajoias.com.br/diantedotrono/

http://www.fernandabrum.com.br/

http://www.fazchover.com.br/novosite/

http://lojathallesroberto.com.br/

Até cruzeiro marítimo gospel tem: http://www.cruzeirosgospel.com.br/publico/. Nada contra a ideia de se encher um navio com pessoas que queiram literalmente ficar ilhados do mundo e ouvir a palavra do Senhor, muito pelo contrario! Mas quando o cruzeiro, realizado num navio nababescamente luxuoso recebe o nome de “Cruzeiro com Fernandinho” e “Cruzeiro com Fernanda Brum”, a coisa se torna marketeira demais, mundana demais. Porque não “Cruzeiro com Jesus” ou “Cruzeiro para morrer para o mundo e viver em Cristo”? Será que não vende ingresso? Será que o nome desses artistas vale mais que o nome de Cristo? A quem é direcionada a honra e a glória?

Para uma reflexão mais profunda, deixo o texto encontrado em 2Cr 26:1-22, que relata a história do rei Uzias, que começou a vida humilde e ajudado pelo Senhor, mas se perdeu no caminho por conta da soberba:

Então todo o povo tomou a Uzias, que tinha dezesseis anos, e o fizeram rei em lugar de Amazias seu pai.
Este edificou a Elote, e a restituiu a Judá, depois que o rei dormiu com seus pais.
Tinha Uzias dezesseis anos quando começou a reinar, e cinqüenta e dois anos reinou em Jerusalém; e era o nome de sua mãe Jecolia, de Jerusalém.
E fez o que era reto aos olhos do Senhor; conforme a tudo o que fizera Amazias seu pai.
Porque deu-se a buscar a Deus nos dias de Zacarias, que era entendido nas visões de Deus; e nos dias em que buscou ao Senhor, Deus o fez prosperar.
Porque saiu e guerreou contra os filisteus, e quebrou o muro de Gate, o muro de Jabne, e o muro de Asdode; e edificou cidades em Asdode, e entre os filisteus.
E Deus o ajudou contra os filisteus e contra os árabes que habitavam em Gur-Baal, e contra os meunitas.
E os amonitas deram presentes a Uzias; e o seu nome foi espalhado até à entrada do Egito, porque se fortificou altamente.
Também Uzias edificou torres em Jerusalém, à porta da esquina, e à porta do vale, e à porta do ângulo, e as fortificou.
Também edificou torres no deserto, e cavou muitos poços, porque tinha muito gado, tanto nos vales como nas campinas; tinha lavradores, e vinhateiros, nos montes e nos campos férteis; porque era amigo da agricultura.
Tinha também Uzias um exército de homens destros na guerra, que saíam à guerra em tropas, segundo o número da resenha feita por mão de Jeiel, o escrivão, e Maaséias, oficial, sob a direção de Hananias, um dos capitàes do rei.
O total dos chefes dos pais, homens valentes, era de dois mil e seiscentos.
E debaixo das suas ordens havia um exército guerreiro de trezentos e sete mil e quinhentos homens, que faziam a guerra com força belicosa, para ajudar o rei contra os inimigos.
E preparou Uzias, para todo o exército, escudos, lanças, capacetes, couraças e arcos, e até fundas para atirar pedras.
Também fez em Jerusalém máquinas da invenção de engenheiros, que estivessem nas torres e nos cantos, para atirarem flechas e grandes pedras; e propagou a sua fama até muito longe; porque foi maravilhosamente ajudado, até que se fortificou.
Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu contra o Senhor seu Deus, porque entrou no templo do Senhor para queimar incenso no altar do incenso.
Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, e com ele oitenta sacerdotes do Senhor, homens valentes.
E resistiram ao rei Uzias, e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso perante o Senhor, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar incenso; sai do santuário, porque transgrediste; e não será isto para honra tua da parte do Senhor Deus.
Então Uzias se indignou; e tinha o incensário na sua mão para queimar incenso. Indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu à testa perante os sacerdotes, na casa do Senhor, junto ao altar do incenso.
Então o sumo sacerdote Azarias olhou para ele, como também todos os sacerdotes, e eis que já estava leproso na sua testa, e apressuradamente o lançaram fora; e até ele mesmo se deu pressa a sair, visto que o Senhor o ferira.
Assim ficou leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte; e morou, por ser leproso, numa casa separada, porque foi excluído da casa do Senhor. E Jotão, seu filho, tinha o encargo da casa do rei, julgando o povo da terra.
Quanto ao mais dos atos de Uzias, tanto os primeiros como os últimos, o profeta Isaías, filho de Amós, o escreveu.

Que o Senhor tenha misericórdia de Seu povo.

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