Os desafios da igreja no Brasil – II – Desconstrução do mito da renovação da águia.

Caros irmãos, que a paz seja convosco!

 

“E desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas.” 2 Tm 4:4

 

Muitos já devem ter ouvido a “história” da águia que, ao chegar aos 40 anos, fraca e quebrantada, tem que fazer uma escolha: ou opta pela morte, ou passa por um processo extremamente doloroso de transformação, onde arranca suas penas, suas unhas, quebra seu próprio bico, fica de 150 a 180 dias sem comer e ressurge como nova para viver mais 30 anos. É um texto muito utilizado em palestras motivacionais para funcionários de empresas multinacionais e/ou de grande porte, agremiações, escolas e, recentemente, tenho presenciado o seu uso em muitos cultos, pregações, eventos e vídeos doutrinários. Alguns links, entre tantos, para verificar:

http://www.youtube.com/watch?v=xuytkZvi_8w (Pregação renovação da águia)

http://www.esbocosermao.com/2011/11/renovacao-da-aguia.html (Pr. Welfany Nolasco)

Essa “história” da águia serve de base para pregações que falam sobre renovação, perseverança, sacrifício e superação. É bem legal, né? O grande problema é que toda essa “história” sobre a renovação da águia não passa de mito. Antes de prosseguirmos, vejamos qual o significado desse vocábulo:

Mito

s.m. Narrativa popular ou literária, que coloca em cena seres sobre-humanos e ações imaginárias, para as quais se faz a transposição de acontecimentos históricos, reais ou fantasiosos (desejados), ou nas quais se projetam determinados complexos individuais ou determinadas estruturas subjacentes das relações familiares.
Fig. Coisa fabulosa ou rara: a Fênix dos antigos é um mito.
Lenda, fantasia.
Fig. Coisa que não existe na realidade.

Sinônimo de mito: lenda

Fonte:http://www.dicio.com.br/mito/

É bem provável que esse mito tenha se originado ao misturar alguns versículos descontextualizados do Velho Testamento, provavelmente Sl 103:5 entre eles, com o mito da fênix grega – a isso damos o nome de sincretismo religioso, que é assunto a ser detalhado num próximo post.

O primeiro item a ser esclarecido, quando deparamos com esse mito da renovação da águia, é saber a qual espécie de águia se refere o texto. Isso porque existem cerca de 231 espécies de aves, em 65 gêneros distintos, que pertencem à família Accipitridae, englobando as águias e gaviões. O termo águia, ou gavião, é apenas o nome popular dos representantes dessas espécies, encontrando-se, às vezes, ambos os termos para um mesmo pássaro, como é o caso da Harpia brasileira (Harpia harpyia) que pode ser chamada de águia-cinzenta ou gavião-real, conforme a região onde é encontrada. Apesar de não haver um consenso, normalmente o termo “águia” se refere àquelas aves com maior porte e força. Além disso, a águia normalmente utilizada como referência em fotos ou slides sobre o mito é a águia-careca norte americana, encontrada exclusivamente na América do Norte, não ocorrendo naturalmente no Oriente Médio, palco da grande maioria das ações descritas na bíblia.

 

Imagem

Linda, não? Essa é a Haliaeetus leucocephalus, encontrada na America do Norte: Canadá, EUA e México.

 

Já no Oriente Médio e Ásia, onde hoje é situado o Estado de Israel, encontramos outras espécies de águias como a águia-imperial, cujo nome científico é Aquila heliaca.

 

ImagemEssa é a águia-imperial, Aquila heliaca, encontrada naturalmente numa extensa área que vai de Israel até a China. Linda, como quase todas as aves de rapina.

Notemos, no entanto, que nenhuma espécie de águia (e nem de quaisquer outras aves conhecidas até hoje) apresenta o comportamento descrito no mito. É certo que as espécies acima citadas podem viver até os 25-30 anos em liberdade e até os 40 em cativeiro, mas não há registro de que vivam até os 70 anos, nem que em certa época de sua vida vida essas aves optem por morrer ou passar por todo o processo listado. Aliás, o termo “opção” pressupõe um nível de consciência e reflexão intelectual que não existe nas aves de nenhuma família. Quanto à troca de penas, ela é constante nesses animais. Pelo menos uma vez por ano a maioria das penas é trocada, mas sempre aos poucos e não todas de uma vez, o que impediria o voo e consequentemente a alimentação. Isso rechaça outro aspecto do mito, pois é impossível a esses animais, que possuem altas taxas metabólicas, passar 150 dias sem se alimentar. Eles morreriam de fome por volta do oitavo dia e de sede um pouco antes disso. É verdade que os bicos e as unhas crescem indefinidamente, mas o desgaste constante com o uso natural mantém esses elementos sempre dentro dos tamanhos normais para a espécie. Casos de auto-mutilação são raríssimos e sempre relacionados com doenças e/ou estresse anormal em péssimas condições de cativeiro.

Fonte:

http://www.avesderapinabrasil.com/perguntasfrequentes;

http://www.allaboutbirds.org/;

http://www.ceo.org.br/mitos/aguia.htm;

http://diariodebiologia.com/2013/09/o-ritual-de-renovacao-da-aguia-e-verdade/#.UzwqlfldV-k

Entramos então numa outra questão: se a “história” da renovação da águia não passa de mito, lenda, invencionice, por que é utilizada nos púlpitos? Por que é propagada como sendo verdadeira, até mesmo sendo referenciada biblicamente?

É aí que sentimos a falta da atitude bereana: “E logo os irmãos enviaram de noite Paulo e Silas a Beréia; e eles, chegando lá, foram à sinagoga dos judeus. Ora, estes foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim.” At 17:10-11; um saudável ceticismo, que leva a pessoa a conferir se o que ela está ouvindo condiz com a realidade ou cai na esfera dos mitos ou lendas. O analfabetismo funcional, já citado no post anterior, se torna mais uma vez um dos grandes vilões da igreja. A falta de espírito crítico, oriundo do hábito da leitura, transforma os seres humanos em pessoas que acreditam no que é dito por alguém que se porta e é tratado como “superior em conhecimento”. Aliás, muitos dos lobos-pastores, pregadores falastrões, bem vestidos e com boa oratória, se valem de sua condição para propagar ideias absurdas de cima dos púlpitos como sendo verdade divina. Esses indivíduos nefastos  são cientes da falta de conhecimento possuído pelo seu gado fonte de renda rebanho, e, tal como os falsos doutores citados em 2 Pe 2:1, “introduzirão encobertamente heresias de perdição, e negarão o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina perdição.” Tenhamos cuidado com isso. Se Paulo se agradou da atitude bereiana, que confrontou o que ele mesmo dizia, devemos procurar agir da mesma maneira.

Para minimizar esse problema, devemos clamar à igreja que leia mais, que seja mais cuidadosa ao ouvir uma pregação, que procure se ater ao evangelho puro e simples, sem fábulas adicionadas pelo homem, pois “… não vos fizemos saber a virtude e a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo, seguindo fábulas artificialmente compostas; mas nós mesmos vimos a sua majestade.” 2 Pe 1:16.

Que o Senhor nos abençoe segundo Sua vontade.

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